Benefícios sociais evitam crise econômica em cidades do interior, aponta USP

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Benefícios sociais evitam crise econômica em cidades do interior, aponta USP
© Fernando Frazão/Agência Brasil

A desaceleração, o congelamento ou eventuais reduções no valor real de repasses assistenciais e previdenciários têm potencial para desencadear uma retração profunda na economia de municípios do interior brasileiro. O alerta parte de uma pesquisa desenvolvida pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades, vinculado à Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo.

Segundo os pesquisadores, recursos oriundos de aposentadorias, do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada sustentam parcelas expressivas da renda agregada regional. Nas camadas populacionais mais vulneráveis, essa rede de proteção financeira representa quase metade de todo o orçamento doméstico disponível.

Peso econômico dos benefícios sociais no comércio local

Dos 5.569 municípios existentes no território nacional, aproximadamente 4 mil estão localizados fora das grandes regiões metropolitanas. Nessas localidades afastadas das capitais, o impacto relativo das transferências federais sobre a circulação financeira atinge praticamente o dobro do índice observado nas metrópoles.

Um exemplo detalhado no documento envolve o estado do Ceará: enquanto os pagamentos governamentais correspondem a 22% da renda total registrada em Fortaleza e nos municípios vizinhos, no interior cearense essa taxa sobe para expressivos 40%.

De acordo com a economista Luiza Nassif, co-diretora da instituição acadêmica responsável pela pesquisa, o perfil de consumo dessas famílias explica a força do mecanismo. Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa.

Simulações comparativas e risco de retração regional

Para estimar o tamanho da dependência produtiva, os economistas projetaram o comportamento econômico dos municípios interioranos ao longo de um horizonte de três anos. A modelagem utilizou dados consolidados entre 2022 e 2025, intervalo marcado por ganhos reais para o piso previdenciário e o BPC, contrastando-os com a política de reajustes adotada entre 2019 e 2022, caracterizada pela ausência de aumento real acima da inflação.

As projeções indicam que um cenário de desvalorização ou estagnação provocaria uma perda entre 6,8% e 10,8% na renda agregada do interior, quando comparada ao cenário de reajuste com ganho real. Segundo a análise da especialista, a quebra desse fluxo financeiro gera um efeito dominó que penaliza até mesmo os estabelecimentos e trabalhadores que não dependem diretamente dos auxílios governamentais.

As áreas com maior risco de contração severa envolvem:

  • Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí: quedas projetadas entre 17% e 18% da renda total;
  • Amazonas, Sergipe e Pernambuco: redução calculada em torno de 15%;
  • Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia: contração estimada de 10% a 13%;
  • Centro-Sul e Sudeste: perdas de até 6,5% em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Aumento da pobreza extrema e impacto no tecido social

Além de sustentar pequenas empresas, feiras livres e prestadores de serviços, a estabilidade das transferências é apontada como a principal barreira contra a indigência no interior do país. Para famílias com rendimento de até um salário mínimo e meio per capita, as verbas públicas alcançam metade dos recursos mensais de sobrevivência.

Os cálculos da instituição revelam que a ausência de aumentos reais entre 2022 e 2025 teria empurrado cerca de 2,7 milhões de pessoas para a linha da pobreza fora dos centros metropolitanos, sendo que 2,4 milhões passariam a viver em situação de extrema pobreza. Os dados originais foram apurados e disponibilizados pela equipe técnica da Agência Brasil.

Em números brutos, os maiores acréscimos de cidadãos empurrados para a vulnerabilidade social seriam observados na Bahia, com 336 mil pessoas, seguida por São Paulo (263 mil) e Minas Gerais (251 mil), com contingentes superiores a 200 mil indivíduos também no Maranhão, Pará e Ceará. Nassif reforça que a garantia de reajustes consistentes representa a sobrevivência da base mercantil no interior do país.

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