A formalização do desejo de ser doador de órgãos ganhou um novo aliado tecnológico no Brasil. Desde 2024, a Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (Aedo) permite que qualquer cidadão manifeste sua vontade de forma oficial e gratuita através dos cartórios de notas. A iniciativa, que já conta com mais de 32 mil registros, busca reduzir o abismo entre a oferta de tecidos e a longa fila de espera por um transplante no país.
O procedimento é realizado inteiramente pela internet, eliminando a necessidade de deslocamento físico. Por meio da plataforma e-Notariado, o interessado preenche um formulário, seleciona um cartório de sua preferência e participa de uma videoconferência com um tabelião. Após a confirmação da identidade e do desejo de doar, o documento é assinado eletronicamente e integrado à Central Nacional de Doadores de Órgãos, facilitando o acesso das equipes do Sistema Nacional de Transplantes à informação.
O papel da tecnologia na formalização da vontade
A ferramenta oferece flexibilidade ao doador, que pode especificar quais órgãos, tecidos ou partes do corpo deseja disponibilizar. Além disso, a autorização não é definitiva: o cidadão tem a liberdade de revogar o documento a qualquer momento, caso mude de ideia. Essa facilidade busca desburocratizar um processo que, historicamente, dependia apenas de conversas informais entre parentes.
Desde o lançamento, o sistema registrou 18.659 solicitações em 2024, 8.886 em 2025 e 5.042 em 2026. São Paulo lidera o ranking nacional com 9.399 registros, seguido por Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Especialistas observam que a oscilação nos números anuais está diretamente ligada à intensidade das campanhas de conscientização pública sobre a existência do serviço.
O desafio da recusa familiar
Apesar da formalização eletrônica, o Brasil ainda enfrenta um obstáculo cultural significativo: a decisão final sobre a doação após a morte permanece nas mãos da família. Atualmente, a taxa média de recusa familiar gira em torno de 45%. O desconhecimento sobre a vontade do ente querido é um dos principais fatores que levam os familiares a negarem a autorização no momento do óbito.
Conforme destaca Eduardo Calais, presidente do Colégio Notarial do Brasil – Conselho Federal, o registro no cartório funciona como um catalisador para o diálogo doméstico. Ao formalizar a intenção, o cidadão é incentivado a comunicar sua decisão aos familiares, garantindo que, em um momento de dor, a vontade do doador seja respeitada e conhecida por todos.
Cenário crítico na fila de espera
A urgência do tema é evidenciada pelos dados do Ministério da Saúde, que apontam mais de 49 mil pessoas aguardando por um transplante no Brasil. O maior volume de pedidos concentra-se na espera por rins, com cerca de 45 mil pacientes. Paralelamente, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia alerta que a fila por córneas atingiu 37.719 pessoas, um aumento de 15% em relação ao final de 2025.
O debate ganha fôlego especial durante o Setembro Verde, mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos. Com o Dia Nacional de Doação de Órgãos celebrado em 27 de setembro, o objetivo é transformar a intenção em ação concreta. O Diário Independente segue acompanhando os desdobramentos das políticas de saúde pública e os avanços tecnológicos que visam salvar vidas, mantendo você informado com credibilidade e rigor jornalístico.