A história da televisão brasileira não pode ser contada sem o nome de Gilberto Braga. Responsável por elevar o patamar da dramaturgia nacional com obras que se tornaram pilares da cultura popular, como Dancin’ Days e a icônica Vale Tudo, o autor encerrou sua trajetória de forma melancólica. Mesmo após décadas de sucessos inquestionáveis, o dramaturgo partiu em outubro de 2021, aos 75 anos, carregando o peso de uma relação desgastada com a Globo e o sonho não realizado de retornar ao trabalho com uma última grande produção.
O impacto de Babilônia e o distanciamento da emissora
O declínio na relação entre o autor e a emissora ganhou contornos dramáticos após a exibição de Babilônia, em 2015. Escrita em parceria com Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, a novela foi recebida com forte rejeição pelo público e registrou índices de audiência muito abaixo do esperado para o horário nobre. Para um autor acostumado ao prestígio e ao sucesso de crítica e público, o desempenho da trama foi um golpe emocional profundo.
O fracasso de Babilônia não foi apenas um revés comercial; para Gilberto Braga, tornou-se uma ferida aberta. O autor sentia a necessidade de encerrar sua carreira com uma obra que redimisse sua trajetória recente, buscando provar que sua capacidade criativa permanecia intacta. No entanto, o cenário interno da emissora já não era o mesmo, e a alta cúpula passou a adotar uma postura mais cautelosa em relação aos seus novos projetos.
Projetos engavetados e o desejo final
Mesmo debilitado por problemas de saúde — o autor faleceu em decorrência de uma infecção sistêmica causada por uma perfuração no esôfago —, Gilberto Braga manteve o ímpeto de escritor até seus últimos meses de vida. Ele apresentou à direção da Globo três propostas de produções inéditas, na esperança de um retorno triunfal, mas todas foram recusadas pelo canal.
Entre os projetos descartados estavam uma minissérie biográfica sobre Elis Regina, que perdeu o fôlego após o lançamento de um longa-metragem sobre a cantora; a novela Intolerância, uma releitura de Brilhante (1981) desenhada para o horário das 23h; e a adaptação de Feira das Vaidades, baseada na obra de William Thackeray, que seria destinada à faixa das seis. Nenhuma dessas ideias saiu do papel, deixando o autor em um estado de profunda depressão.
A revelação sobre os últimos dias
O parceiro criativo João Ximenes Braga, em depoimento sobre o período, descreveu a angústia vivida pelo veterano em seus momentos finais. Segundo ele, o autor recebia visitas em seu leito hospitalar, mantendo-se lúcido, porém visivelmente abatido pelo estigma do último trabalho. Para Gilberto, a realização de um novo projeto era uma questão de honra pessoal, um último ato para consolidar seu legado.
Embora não tenha conseguido concretizar esse desejo antes de falecer, o impacto de sua obra permanece vivo. O recente remake de Vale Tudo, adaptado por Manuela Dias, é a prova cabal de que a estrutura narrativa e a crítica social construídas por ele continuam a dialogar com o Brasil contemporâneo. O Diário Independente segue acompanhando os bastidores da teledramaturgia e os desdobramentos das grandes produções nacionais, mantendo nosso compromisso com a informação precisa e o contexto histórico que você encontra diariamente em nossas páginas.