O acesso ao crédito continua sendo um dos maiores desafios para o crescimento da indústria brasileira. De acordo com a Sondagem Especial 107, divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), os juros elevados figuram como a principal barreira enfrentada pelos empresários na tentativa de financiar suas operações. O levantamento, que ouviu 1.701 empresas entre agosto de 2026, revela que o custo do dinheiro permanece em patamares que sufocam o planejamento de curto, médio e longo prazo.
O peso dos juros no financiamento industrial
Os dados são claros sobre o impacto das taxas na rotina das fábricas. Entre as empresas que encontraram dificuldades para obter recursos de curto ou médio prazo, 76% apontaram o custo dos juros como o principal entrave. Em operações de longo prazo, com vencimento superior a cinco anos, a taxa de queixa chega a 69%. Embora esses números apresentem uma leve queda em relação ao ano de 2025, a percepção de dificuldade permanece alta, evidenciando que a política monetária ainda reflete com lentidão no custo final do crédito para o setor produtivo.
Maria Virgínia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI, explica que a queda da taxa básica de juros demora a ser sentida na ponta. Para o empresário, o crédito ainda chega com um custo proibitivo, o que desestimula novos projetos e a expansão da capacidade produtiva. Esse cenário é agravado por outros fatores, como a exigência de garantias reais, citada por mais de 30% das empresas, e a burocracia excessiva, que ainda trava processos de concessão de recursos.
Frustração na busca por recursos
A pesquisa mostra um aumento na taxa de frustração das empresas que tentaram contratar ou renovar financiamentos. No segmento de curto e médio prazo, 24,7% das tentativas não obtiveram sucesso, um salto em relação aos 20% registrados anteriormente. No longo prazo, a situação é ainda mais crítica, com 37,2% de insucesso. As pequenas empresas são as mais penalizadas por essa restrição, enfrentando dificuldades muito superiores às das grandes corporações na hora de buscar capital para manter suas atividades.
Um ponto de atenção levantado pela CNI é o uso de linhas de longo prazo para cobrir despesas de curto prazo. Cerca de 28,7% das empresas que acessaram financiamentos de longo prazo utilizaram o recurso para capital de giro, superando o investimento em máquinas e equipamentos, que ficou em 23,6%. Esse comportamento indica que o setor industrial está utilizando dívidas de longo prazo apenas para sobreviver ao dia a dia, em vez de focar na modernização tecnológica ou na ampliação da infraestrutura.
Caminhos para a desoneração
Para reverter esse quadro, o setor industrial aponta a redução de custos tributários e administrativos como a medida mais urgente. Quase 40% dos empresários acreditam que simplificar a carga tributária e desburocratizar o acesso aos bancos seria o passo fundamental para destravar o crédito. A busca por um ambiente de negócios mais eficiente é, hoje, tão importante quanto a própria política de juros para garantir que a indústria volte a ser um motor robusto da economia nacional.
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