Evento em Fortaleza propõe reforma na política de drogas sob o viés da justiça social

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Evento em Fortaleza propõe reforma na política de drogas sob o viés da justiça social
© Fábio Carvalho/Arquivo pessoal

A 2ª edição da feira Febre de Arte, realizada em Fortaleza, encerrou suas atividades no último domingo (20) com um chamado direto à mobilização política. Durante o evento, realizado no Anfiteatro Sérgio Motta, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, palestrantes e expositores defenderam que o eleitor brasileiro deve priorizar, nas próximas eleições, candidatos comprometidos com a reformulação das políticas sobre drogas sob a ótica da justiça social.

O papel da representação política na reforma do sistema

O debate central girou em torno da necessidade de rejeitar posturas reacionárias que ainda dominam o Poder Legislativo e o Executivo, tanto em nível federal quanto estadual. Dados do setor indicam que, até a semana passada, pelo menos 44 candidatos já se posicionavam publicamente a favor da legalização ou descriminalização da cannabis. Distribuídos em dez partidos, esses nomes buscam, em sua maioria, cadeiras no Legislativo, sinalizando uma tentativa de pautar o tema dentro das instituições formais.

Para os participantes da feira, o voto consciente é a ferramenta principal para romper com o atual modelo de repressão. A argumentação é de que a construção de propostas viáveis depende de representantes que compreendam a complexidade do tema, afastando-se de dogmas que, historicamente, têm servido apenas para alimentar o encarceramento em massa e a seletividade penal.

Saúde pública e as falhas da indústria farmacêutica

A médica de família e comunidade Magda Almeida, docente da Universidade Federal do Ceará (UFC), trouxe uma perspectiva clínica ao debate. Ela criticou a postura ideológica que reduz o debate sobre a cannabis a um senso comum de que a planta “faz mal”, enquanto ignora os riscos reais de medicamentos convencionais. Segundo a médica, pacientes frequentemente recorrem a substâncias como a pregabalina para tratar ansiedade e fibromialgia, ignorando efeitos colaterais graves como mudanças de humor e pensamentos suicidas.

Magda ressaltou que a indústria farmacêutica falha ao estabelecer doses genéricas, desconsiderando a tolerância individual. “Cannabis não serve para tudo. Nenhum remédio serve para tudo”, pontuou, defendendo que o acesso a tratamentos seguros também deve passar por uma política de combate aos agrotóxicos, garantindo que o cultivo seja livre de químicos nocivos, algo que a agroecologia e a agricultura familiar poderiam fomentar.

O custo social da guerra às drogas

Um dos pontos mais sensíveis da discussão foi o impacto da atual política de segurança pública. O advogado Italo Coelho e a coordenadora da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (Renfa), Tamára Silva, destacaram como a repressão seletiva territorializa a violência. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 41,2% da população percebe a presença do crime organizado em seus bairros, um índice que sobe para 55,9% nas capitais.

O custo dessa política não é apenas social, mas também financeiro e humano. Relatórios da Pastoral Carcerária Nacional apontam que famílias de detentos gastam, em média, 70% de um salário mínimo mensal para garantir itens básicos de higiene e alimentação aos parentes encarcerados, totalizando um impacto de R$ 4,33 bilhões anuais transferidos para o sistema prisional. Para as lideranças presentes no evento, o modelo atual de “mais polícia e mais presídio” tem se mostrado ineficaz há mais de um século, servindo apenas para perpetuar o ciclo de violência e o fortalecimento de facções criminosas.

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