Eleitorado quilombola cresce e jovens reforçam luta por representatividade nas urnas

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Eleitorado quilombola cresce e jovens reforçam luta por representatividade nas urnas
Thauany ficou tão empolgada com o primeiro voto que, assim que completou 16 anos em abril, foi com a mãe, Mayara, até o centro da cidade para fazer valer os direitos de cidadã Dobro de eleitores

O calendário eleitoral de 2026 marca um momento de transformação para as comunidades tradicionais brasileiras. No próximo dia 4 de outubro, o agricultor Joaquim Moreira, de 87 anos, morador da comunidade quilombola de Antinha de Baixo, em Santo Antônio do Descoberto (GO), terá uma companhia especial ao se dirigir à seção eleitoral: sua neta, a estudante Thauany Silva, de 16 anos. Para o veterano, que mantém o hábito de votar como um exercício de cidadania, o gesto da neta representa a renovação de um compromisso coletivo com o futuro do território.

A empolgação de Thauany, que obteve seu título de eleitora logo após completar 16 anos, reflete um movimento mais amplo de conscientização política que atravessa as comunidades quilombolas de norte a sul do país. O engajamento da juventude, aliado ao histórico de resistência dos mais velhos, aponta para uma participação cada vez mais ativa na escolha de representantes que compreendam as demandas específicas por direitos territoriais e políticas públicas.

Crescimento expressivo do eleitorado quilombola

Os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmam a tendência de ascensão. Entre as eleições municipais de 2024 e o pleito de 2026, o número de eleitores que se autodeclaram quilombolas saltou de 95.409 para 188.371, um crescimento que praticamente dobra a representatividade numérica desse segmento. Em Goiás, estado onde reside a família de Joaquim e Thauany, o contingente de eleitores quilombolas subiu de 3.625 para 5.394.

O Nordeste permanece como a região com a maior concentração desse eleitorado no Brasil. Em 2024, a região contabilizava 51.633 eleitores quilombolas, número que alcançou 95.901 em 2026. Segundo o TSE, mais da metade de todos os eleitores quilombolas do país está concentrada nos estados nordestinos, consolidando a região como um polo central de articulação política e defesa de direitos tradicionais.

Consciência política e o papel do território

Para muitas lideranças, a participação no processo eleitoral é indissociável da sobrevivência das comunidades. Franciele Silva, universitária de direito de 27 anos e moradora da comunidade de Rio dos Macacos, em Simões Filho (BA), enxerga o voto como uma ferramenta de defesa do território. “Até o ar que a gente respira tem a ver com política”, afirma a estudante, que utiliza seu conhecimento acadêmico para auxiliar sua comunidade na busca por titulação de terras e proteção ambiental.

A pesquisadora Bia Nunes, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), avalia que esse movimento é fruto de um processo de letramento político. “Nós temos levado as nossas pautas a diferentes espaços e encontramos parcerias”, explica. Segundo ela, o engajamento cresce à medida que a sociedade passa a reconhecer o papel dos quilombolas como guardiões da biodiversidade e da floresta, exigindo dos governantes um compromisso real com a titulação de terras.

Desafios e a necessidade de proteção institucional

Apesar do avanço na participação, o cenário ainda é marcado por vulnerabilidades. A própria Bia Nunes relata ter sofrido ameaças à sua vida em 2020, quando era candidata, o que a levou a integrar um programa de proteção. A violência política contra lideranças quilombolas permanece como um entrave que exige, segundo a pesquisadora, campanhas mais robustas por parte do Estado brasileiro para garantir a segurança e o estímulo ao surgimento de novos candidatos quilombolas.

O educador financeiro Rafael Costa, da comunidade Mesquita, em Cidade Ocidental (GO), complementa que a politização também passa pela educação e pelo combate à desinformação. “Quanto mais as pessoas se informam, mais pesquisam e passam a ter noção da necessidade de políticas públicas”, destaca. Para ele, o fortalecimento do espírito de cooperação, típico das comunidades, é o alicerce para que o eleitor quilombola exerça seu direito com autonomia e consciência crítica.

O Diário Independente segue acompanhando de perto o desenrolar do processo eleitoral e os impactos das políticas públicas nas comunidades tradicionais. Continue conosco para mais reportagens aprofundadas, análises contextuais e o compromisso permanente com a informação de qualidade que você já conhece.

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