A jornada em busca de um diagnóstico preciso para a esclerose múltipla (EM) tem se mostrado um obstáculo silencioso e devastador para milhares de brasileiros. Um levantamento recente, realizado pela HSR Health em parceria com a Roche Farma e divulgado pela Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (ABEM), revela que cerca de 25% dos pacientes levam mais de cinco anos para confirmar a condição. Esse intervalo prolongado não é apenas uma falha administrativa, mas um fator determinante que acelera a progressão da doença e compromete a reserva funcional do sistema nervoso central.
O estudo, que ouviu 368 pessoas em tratamento durante o Agosto Laranja — mês dedicado à conscientização sobre a enfermidade —, expõe uma realidade preocupante: mais da metade dos entrevistados (56,8%) recebeu diagnósticos incorretos antes de chegar à conclusão definitiva. Para o neurologista Rodrigo Kleinpaul, coordenador do Ambulatório de Neuroimunologia do Hospital das Clínicas da UFMG, a agilidade no diagnóstico é a principal ferramenta para evitar danos irreversíveis.
A barreira invisível entre sintomas e confirmação
A complexidade da esclerose múltipla reside em sua natureza camaleônica. Como uma doença autoimune que ataca a mielina — a capa protetora das fibras nervosas —, seus sintomas iniciais costumam ser difusos e transitórios. Formigamentos, dormências e embaçamento visual são frequentemente confundidos com quadros de ansiedade ou problemas ortopédicos comuns, o que atrasa a investigação neurológica especializada.
Os dados da pesquisa apontam que a jornada do paciente é marcada por um verdadeiro périplo médico. Em média, os diagnosticados passam por quatro profissionais diferentes antes de obterem a resposta correta. Para 36% dos ouvidos, a dificuldade de acesso a diagnósticos precisos começa na própria rede de atendimento, enquanto 23% apontam o custo elevado de exames fundamentais, como a ressonância magnética, como um entrave crítico.
Impactos na rotina e na vida produtiva
A história de Lucimara de Lima Santana, educadora física de 44 anos, ilustra o peso dessa espera. Durante quatro anos, ela percorreu diversos consultórios em São Paulo, recebendo diagnósticos que variavam de problemas ortopédicos a suspeitas de outras doenças, enquanto sua fadiga e dores se intensificavam. Somente após a insistência em exames de imagem detalhados e coleta de líquor, a esclerose múltipla foi confirmada.
A doença, que afeta cerca de 40 mil brasileiros, atinge majoritariamente mulheres jovens, entre 20 e 40 anos, justamente no período de maior produtividade profissional. O impacto vai além da saúde física: 72,8% dos pacientes relatam prejuízos financeiros ou na carreira, e quase um terço prefere esconder o diagnóstico no trabalho por medo de estigma ou demissão.
Avanços terapêuticos e o desafio do acesso
Apesar do cenário desafiador, a medicina deu passos largos no controle da progressão da doença. O neurologista Rodrigo Kleinpaul ressalta que o prognóstico mudou drasticamente na última década. “Dez anos atrás, uma mulher jovem diagnosticada aos 20 anos provavelmente estaria em uma cadeira de rodas aos 40. Hoje, conseguimos evitar que isso aconteça”, afirma o especialista, destacando a importância do tratamento precoce para manter a autonomia do paciente.
Contudo, o tratamento não é isento de barreiras. Quase 42% dos pacientes relatam interrupções ou dificuldades de acesso aos medicamentos, seja por burocracia excessiva dos planos de saúde ou falhas na distribuição. A luta pela manutenção da saúde mental também é urgente, visto que a depressão e a ansiedade são companheiras frequentes após o diagnóstico, exigindo um acolhimento multidisciplinar que, muitas vezes, ainda é insuficiente no sistema de saúde.
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