Apoio psicológico é essencial para superar traumas após a perda gestacional

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Apoio psicológico é essencial para superar traumas após a perda gestacional
© Tomaz Silva/Agência Brasil

O impacto invisível da perda gestacional

A interrupção involuntária da gravidez, um evento que atinge entre 15% e 20% das gestações, carrega um peso emocional frequentemente subestimado pela sociedade. Para muitas mulheres, o luto gestacional não é apenas uma dor passageira, mas uma experiência traumática que exige atenção especializada e um olhar empático. O caso de Kalyane Ribeiro, que aos 32 anos enfrentou a perda precoce após um longo período de tentativas, ilustra o isolamento que muitas pacientes vivenciam ao tentar processar o vazio deixado pela interrupção.

A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) alerta que o sofrimento intenso após a perda é uma reação humana esperada, mas que, sem o devido suporte, pode evoluir para quadros de depressão ou luto patológico. Especialmente durante o Setembro Amarelo, a discussão sobre a saúde mental ganha urgência, destacando a necessidade de desmistificar o luto gestacional e oferecer caminhos seguros para a recuperação emocional.

Fatores biológicos e o limite do sofrimento

Além da carga psicológica, a mulher enfrenta mudanças hormonais bruscas. A psiquiatra Andréa Cristina Galastri explica que a queda hormonal pós-perda é comparável a uma tensão pré-menstrual intensificada, o que fragiliza ainda mais o estado emocional. No entanto, a médica ressalta que o sofrimento natural não deve ser confundido com a paralisia da vida cotidiana.

Quando sintomas como insônia, choro persistente, perda de apetite e sentimentos de desesperança se estendem por mais de 15 dias ou um mês, o quadro exige intervenção médica. A psicoterapia e, em casos específicos, o uso de medicação, tornam-se ferramentas essenciais para reajustar o equilíbrio bioquímico alterado pelo estresse extremo, evitando que a dor se transforme em um transtorno psiquiátrico crônico.

A necessidade de uma postura proativa na medicina

O obstetra Eduardo Felix Martins Santana, integrante da Febrasgo, defende que a assistência médica não deve se limitar ao aspecto clínico da interrupção. Para o especialista, é fundamental que os profissionais de saúde adotem uma postura proativa, buscando o acolhimento da paciente antes mesmo que ela retorne ao consultório em um estado de depressão profunda. O desafio, segundo o médico, é difundir essa cultura de cuidado humanizado por todo o território nacional.

O acolhimento deve envolver não apenas o médico, mas também a rede familiar e social da mulher. Frases comuns como “você pode tentar de novo” são frequentemente sentidas como uma invalidação da dor e uma tentativa de substituir o filho perdido, o que reforça o isolamento. O apoio real, portanto, passa pela escuta ativa e pelo reconhecimento da legitimidade do luto, independentemente da idade gestacional em que a perda ocorreu.

Comunidades digitais como refúgio

Na ausência de espaços de acolhimento institucional, muitas mulheres têm buscado conforto em comunidades online. Kalyane Ribeiro, que hoje compartilha sua trajetória através do projeto Ainda me Sinto Mãe, transformou sua experiência em uma rede de apoio que conecta mulheres de diversas faixas etárias. Desde adolescentes até mulheres que carregam o luto há décadas, a troca de vivências tem se mostrado um pilar fundamental para a ressignificação da dor.

O projeto de Kalyane, que inclui a publicação de um livro, demonstra como a narrativa pessoal pode ser uma ferramenta terapêutica poderosa. Ao compartilhar histórias, essas mulheres não apenas encontram validação para seus sentimentos, mas também ajudam a romper o silêncio que cerca o tema, pressionando por uma mudança na forma como a sociedade e o sistema de saúde lidam com a perda gestacional.

Para quem busca orientação ou está passando por momentos de crise, o Ministério da Saúde reforça que o diálogo com pessoas de confiança e o acesso a serviços de saúde especializados são passos cruciais. O Diário Independente segue acompanhando os desdobramentos sobre políticas públicas de saúde e bem-estar. Continue conosco para mais informações relevantes e reportagens aprofundadas sobre os temas que impactam a sua vida.

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